Apenas 24% dos 65 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos gerados no mundo em 2023 foram reciclados por sistemas formais. Os outros 76% seguiram para aterros, armazenamento doméstico ou cadeias informais de descarte, fazendo com que os minerais presentes nesses equipamentos deixassem de retornar à indústria.
Os dados constam no The Sustainable Development Goals Report 2026, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta os resíduos eletroeletrônicos como um dos fluxos que mais crescem no planeta, com uma geração média de 8,1 quilos por habitante.
Além do impacto ambiental, o desperdício representa uma perda de matérias-primas essenciais para diversos setores industriais. Ferro, aço, alumínio, cobre, chumbo e metais preciosos como ouro, prata e paládio estão presentes na maioria dos equipamentos eletroeletrônicos e poderiam retornar às cadeias produtivas por meio da reciclagem, reduzindo a necessidade de extração de recursos naturais.
Porém, embora a maior parte dos metais seja tecnicamente reciclável, diferentes fatores impedem que esses materiais retornem ao ciclo produtivo.
“Existe um desafio cultural muito grande. As pessoas guardam os equipamentos durante anos em casa ou fazem um descarte informal. Quando isso acontece, parte dos materiais até pode ter sido reciclada, mas ninguém sabe porque perde-se a rastreabilidade. Isso acontece principalmente com os minerais de maior valor presentes nas placas eletrônicas”, disse Marcus Oliveira, CEO da empresa de economia circular chamada Circular Brain, em entrevista ao Radar Mineração.
Oliveira pontua que outro obstáculo é a ausência de regulamentação e de incentivos. Sem regras claras, fiscalização e sistemas estruturados de logística reversa, boa parte dos resíduos deixa de chegar às empresas especializadas em recuperação de materiais.
Fernando Rodrigues, gerente de Relações Institucionais da ABREE (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos), reforçou ao Radar Mineração que a logística reversa não apenas depende da participação do consumidor, mas que também enfrenta desafios relacionados à dimensão territorial do Brasil e à necessidade de ampliar a adesão de fabricantes aos sistemas formais de recolhimento.
As diferenças entre os minerais
Os metais que têm mais volume no mercado e valor econômico continuam sendo os que são mais recuperados. Ferro, aço, alumínio, cobre e chumbo possuem cadeias de reciclagem consolidadas e retornam com facilidade à indústria.
Em 2024, o Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio para bebidas, ou 33,9 bilhões de unidades.
Ouro, prata e paládio também são recuperados em refinarias especializadas, embora exijam processos mais complexos devido à sua concentração nas placas eletrônicas.
Já parte dos minerais considerados estratégicos, especialmente algumas terras raras presentes em componentes eletrônicos, ainda enfrentam limitações tecnológicas para recuperação em escala comercial.
“Os metais básicos são recuperados praticamente na sua totalidade. Já os metais mais estratégicos acabam, muitas vezes, se perdendo no processo de reciclagem. A tecnologia ainda precisa evoluir para a reciclagem desses minerais”, explicou Marcus Oliveira.
Reciclagem fortalece a indústria

O reaproveitamento dos componentes eletroeletrônicos, especialmente os minerais presentes neles, é uma estratégia de negócio e que pode garantir (ou não) a sobrevivência das indústrias nos próximos anos, uma vez que a demanda tende a aumentar cada vez mais – enquanto os recursos naturais são finitos.
“Hoje, a economia circular deixou de ser um tema exclusivamente ambiental e se tornou um tema de estratégia de cadeia de suprimentos. Como ser sustentável nos próximos anos? A lógica é a seguinte: é estratégico, do ponto de vista da indústria, gerir a sua cadeia de suprimentos e a disponibilidade desses materiais para que ela consiga ser viável no longo prazo”, observa Oliveira.
“Se a demanda por metais deve triplicar nos próximos anos, a mineração também precisará olhar para as minas urbanas. É estratégico conservar essas fontes secundárias, porque elas ajudam a garantir o abastecimento e reduzem a pegada de carbono da produção”.
Mineração urbana
Na avaliação dos especialistas, a chamada mineração urbana desponta como uma das principais alternativas para complementar a oferta de minerais essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia.
Em vez de depender exclusivamente de novas jazidas, o conceito propõe recuperar metais já presentes em equipamentos descartados, reduzindo a pressão sobre o ambiente e fortalecendo a segurança das cadeias globais de suprimento. “Não importa onde está o mineral: pode ser debaixo da terra ou em um produto que já foi feito. A mineração está nos dois lugares”, completou Oliveira.
n
Fonte: https://radarmineracao.com.br/onu-residuos-eletronicos-com-minerais-nao-sao-reciclados/













