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Em um mundo cada vez mais conectado, eletrificado e comprometido com a redução das emissões de carbono, a demanda por minerais estratégicos cresce no mesmo ritmo da expansão das fontes renováveis.
Isso porque praticamente toda a infraestrutura necessária para gerar energia dos ventos é construída a partir de recursos minerais. Sem aço, cobre, alumínio, terras raras e outros insumos, não há turbinas, eletrificação e, consequentemente, transição energética.
É o que defende Elbia Gannoum, Presidente Executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias), em entrevista ao Radar Mineração. Economista e Phd em Economia Industrial, Elbia também é vice-chair do GWEC (Global Wind Energy Council), além de Conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável do governo federal.
Para a executiva, há uma transformação econômica em curso, tanto no modo de produzir quanto no de consumir. E para ter relevância nesse cenário, o Brasil precisa muito mais do que os recursos minerais. “O país precisa de uma política industrial que enxergue mineração, energia e tecnologia como parte da mesma estratégia”, resume Elbia.
A seguir, Elbia Gannoum comenta sobre as perspectivas e desafios desta interação entre as indústrias de mineração e energia renovável.
Como você observa a intersecção entre a mineração e a geração de energia eólica?
É importante voltar a um contexto mais amplo antes de discutir a indústria mineral, porque hoje nós estamos falando de uma transição energética necessária, uma vez que sabemos que mais de 80% da produção de gases de efeito estufa está associada ao uso da energia. Tem um outro fator que é muito importante também: a compreensão do quanto a sociedade está mudando, seja pela questão climática ou seja pela ambiental, política, social, energética e, principalmente, tecnológica, com destaque para a tecnologia da informação. Estamos em um momento de inflexão muito grande, portanto. Eu digo que é uma transformação econômica, não só uma transformação social e ambiental, mas do modo de produzir e de consumir. É um processo que leva a sociedade para a busca de uma economia de baixo carbono. Do ponto de vista econômico, temos muitas incertezas desse cenário, mas, na prática, temos grandes certezas também.
O Brasil precisa fazer uma política industrial para ser estratégico no novo modelo econômico global.”
Elbia Gannoum
Quais são elas?
Uma certeza é que seremos uma sociedade cada vez mais tecnológica, dependente da tecnologia da informação. E outra é que seremos uma sociedade cada vez mais descarbonizada, tendo em vista a imposição do clima. Então, podemos ter algumas dúvidas a respeito do futuro, mas nós temos essas duas certezas. Isso nos faz refletir a respeito do uso e da produção de energia.
Qual reflexão você destaca?
Para produzir tecnologia de transformação, precisa-se de muita energia. E essa energia precisa ser descarbonizada, limpa e renovável. Mas para produzir tudo isso você também precisa de insumos básicos, ou seja: minerais. Não há dúvidas a respeito disso. Então, quando vem a temática da mineração e quando pensamos nas economias que estão revisitando todas as suas políticas econômicas e também a política industrial, não há hipótese de partir para uma revisão sem trazer para a base dessa mudança a indústria mineral.
A mineração está na base da pirâmide então?
Sem dúvida. A mineração está na base dessa grande transformação, seja do ponto de vista econômico e social ou seja do ponto de vista político. E ela sustenta a produção de energia que, por sua vez, é base da tecnologia da informação.

Quais são os principais recursos naturais usados para a geração de energia limpa?
Para gerar energia renovável, usamos vento, sol, água e biomassa. Mas para chegar na geração energética, dependemos necessariamente do uso de outro recurso natural: os minérios. E os países que detêm uma quantidade maior de reserva mineral serão protagonistas desse processo de transformação que o mundo está passando.
A energia eólica é altamente dependente da mineração, uma vez que mais de 90% dos nossos equipamentos são produzidos a partir de recursos minerais, como aço, alumínio, cobre e ímãs.
Não se pode pensar em energia, tecnologia da informação ou mineração isoladamente. Precisa ser um olhar amplo. E a indústria de mineração deve ser vista como uma importante fornecedora dessa nova economia.”
De onde vêm os recursos minerais para a indústria de energia eólica no Brasil atualmente?
O Brasil produz muitos recursos minerais, porém, não consegue transformar toda a cadeia produtiva. A indústria de energia eólica é, talvez, uma das poucas indústrias modernas na qual 80% de um equipamento é produzido no Brasil. A energia solar não é assim, ela importa tudo da China. Só que nós temos situações aqui nas quais precisamos avançar no processamento desses minerais e fechar o ciclo da cadeia de produção, porque ainda temos muitos componentes que não conseguimos fazer. Existe o fator do preço e da competitividade. Às vezes é mais barato importar uma chapa de aço da China do que comprá-la no Brasil. Por isso a China domina o mercado da transição energética hoje e nós temos alguns desafios a serem vencidos.
Quais são os desafios?
Há questões legais e regulatórias muito relevantes para a indústria mineral. Esta é uma das questões que se colocam quando falamos em política industrial. O Brasil precisa fazer uma política industrial para ser estratégico nesse novo modelo econômico global. O país é rico em recursos naturais e ele pode se colocar como um dos principais atores, no topo de países fornecedores de soluções energéticas, tecnológicas e minerais para esse novo modelo econômico, mas precisa dessa política industrial com um olhar amplo. Não se pode pensar em energia, tecnologia da informação ou mineração isoladamente. Precisa ser um olhar amplo. E a indústria de mineração deve ser vista como uma importante fornecedora dessa nova economia.
Isso envolve também a questão legal e regulatória, porque o Brasil é um dos países que tem a maior carga tributária do mundo. Então, isso tudo que comentei mexe em política tributária. Entendo que precisamos compor uma política tributária inteligente, que possa pensar estrategicamente e que ajude a fechar os ciclos de produção que precisam ter escala e competitividade. E, para lidar com a competitividade, tem que reduzir o bom e velho custo Brasil.











