A indústria mineral extrai anualmente cerca de 2,5 bilhões de toneladas de minério de ferro em todo o mundo e, nos últimos anos, a demanda por minérios de ferro de alto teor, especialmente os de grau de redução direta (DR-grade), está crescendo. A tendência é apontada pelos autores do relatório Global high-grade iron ore market is set to grow, publicado pelo Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA) em março de 2026.
De acordo com o documento, a redução direta, quando combinada com hidrogênio verde e energia renovável, é vista como a principal rota para a produção de aço de baixas emissões de gases de efeito estufa. O desafio, segundo os especialistas, é obter minérios com níveis muito baixos de impurezas.
Atualmente, o minério DR-grade representa apenas uma pequena parcela da oferta global, que é amplamente dominada pelo minério de grau de alto-forno (BF-grade). No entanto, a expansão acelerada de plantas de redução direta (DRI) globalmente, muitas das quais não possuem suprimento local de pelotas, está colocando forte pressão sobre os produtores globais.
A demanda em alta por minério de maior qualidade tem pressionado as projeções de oferta para a próxima década. Relatórios de mercado convergem na avaliação de que o setor caminha para um déficit relevante, o que abre espaço para novos fornecedores. A BloombergNEF estima uma lacuna de 15 milhões de toneladas por ano até 2030, com possibilidade de chegar a 133 milhões de toneladas anuais em 2040. A Midrex trabalha com um déficit potencial de até 16,4 milhões de toneladas até 2034. Já a S&P Global projeta uma insuficiência entre 70 milhões e 85 milhões de toneladas até 2035.
Diante desse cenário, fornecedores em diferentes regiões passam a se posicionar para atender a essa demanda. O movimento inclui operações no Brasil, no Canadá e em países nórdicos, como a Suécia, além da entrada de novos projetos na África. A leitura é consolidada em relatório da IEEFA, que aponta uma reorganização da oferta global em torno de minério com maior teor e menor intensidade de carbono.
O documento identifica três frentes principais adotadas pela indústria. A primeira envolve a melhoria da qualidade do minério, com produtores de material BF-grade investindo em rotas de processamento mais complexas, como a flotação, para alcançar especificações compatíveis com o padrão DR-grade. A segunda estratégia passa pela expansão de capacidade, com ampliação de operações existentes e plantas de pelotização. A terceira frente está nos projetos greenfield, com desenvolvimento de novas minas, sobretudo voltadas à exploração de magnetita.
DR-grade e BF-grade
O DR-grade ou minério de alto teor é definido por ter altos teores de ferro e níveis muito baixos de impurezas. Os limites aceitáveis para que um minério seja considerado DR-grade exigem um teor de ferro superior a 66%, com produtos variando de 67% e 69% até 71,3%, e níveis combinados impurezas, no caso sílica e alumina, inferiores a 3,5%. Algumas especificações mais rigorosas mencionam ganga (material estéril) total abaixo de 3%, ou sílica e alumina combinadas inferiores a 2,5%.
Já o BF-grade ou minério de grau médio é caracterizado por possuir um menor teor de ferro e maiores níveis de impurezas em comparação ao minério de redução direta. Minérios de grau médio destinados a altos-fornos costumam apresentar um teor de ferro em torno de 63% a 65,1%. As impurezas nestes minérios costumam exceder as especificações para redução direta.
A mineração global busca investir em etapas complexas de beneficiamento e moagem, caso das colunas de flotação, para conseguir separar o ferro dessas impurezas e entregar produtos finais em que o total de impurezas fique abaixo de 3%.
Monitoramento de impurezas
As principais impurezas monitoradas no minério de ferro são a sílica, a alumina e o fósforo. Entenda:
Sílica e alumina
A quantidade combinada desses dois elementos é o principal indicador de restrição para minérios de alto teor. Para que o minério atinja a cobiçada classificação de grau de redução direta, a soma de sílica e alumina deve ser extremamente baixa, geralmente inferior a 3,5% ou até mesmo abaixo de 2,5% nas especificações mais rigorosas. Além da soma, a relação entre elas também é um fator comercial de qualidade; por exemplo, alguns minérios de grau médio focam em manter uma proporção de alumina para sílica inferior a 0,2.
Fósforo
Este é outro contaminante crítico que pode encarecer e dificultar o aproveitamento das reservas. Minérios com alto teor de fósforo exigem plantas de processamento e etapas adicionais projetadas especificamente para a redução desta impureza antes que o produto alcance especificações adequadas para a siderurgia.
Antes do beneficiamento
Após a extração do minério de ferro, as concentrações comerciais médias obtidas pelo processamento e beneficiamento passam de 62% para mais de 68% de ferro, dependendo se o material vai ser direcionado para alto-forno ou para redução direta.
Antes disso, é preciso considerar que tipo de depósito está sendo explorado. As grandes reservas globais são formadas principalmente por hematita e a magnetita, mas o ferro também está contido em goethita e martita, para ficarmos nos mais conhecidos.
A concentração de ferro natural (in-situ) nesses depósitos varia consideravelmente e costuma ser bem inferior ao exigido pela indústria, sendo necessário o seu processamento. O depósito de Kami, no Canadá, por exemplo, apresenta recursos com um teor de ferro médio de 29,6%.
Já o depósito de Zanaga, no Congo, possui reservas mistas de magnetita e hematita com teor natural de cerca de 32% a 33,9%. Outros depósitos conhecidos incluem o projeto Simandou North, na Guiné, cujos teores naturais variam de 33% a 46%.
Aço verde com menor teor
O relatório da IEEFA destaca também duas principais frentes tecnológicas em desenvolvimento para permitir o uso de minérios de ferro de menor teor (baixo e médio grau) na produção de aço verde: eletrólise direta e as tecnologias de fundição combinadas com a redução direta.
No primeiro caso, o destaque é o projeto da Boston Metal, em Minas Gerais, apontado como uma referência, embora a empresa tenha enfrentado desafios técnicos e atrasos, evidenciando o risco e o longo prazo necessários para levar inovações desse tipo à maturidade comercial.
Já as tecnologias de fundição combinadas com redução direta envolvem o uso de fundidores elétricos acoplados à etapa de redução. O diferencial dessa tecnologia é focar na remoção de impurezas do ferro fundido após a etapa de redução do minério, em vez de exigir uma matéria-prima purificada desde o início.
Essa solução possui duas vias principais em desenvolvimento: a primeira é baseada em minério de ferro aglomerado e a outra foca em processar finos de minério.
Apesar dessas inovações promissoras, os especialistas alertam que tais tecnologias ainda precisam de tempo para ganhar escala, validação técnica e demonstração em nível comercial, antes de obterem ampla aceitação no setor
Além disso, a maioria das rotas de fundição ainda depende de minério na forma de produtos aglomerados (como as pelotas). Devido a essas incertezas de prazo e escalabilidade comercial, a indústria siderúrgica global terá de iniciar sua jornada de descarbonização baseando-se nas tecnologias de redução direta já maduras, as quais exigem a continuidade e o aumento do fornecimento de minérios de alta pureza (DR-grade).
Glossário de alguns termos usados nesta matéria
Processo de aglomeração que transforma minério de ferro fino em esferas resistentes chamadas pelotas, por meio de mistura com aglomerantes e queima em altas temperaturas. As pelotas têm maior uniformidade, resistência mecânica e teor de ferro que o minério natural, sendo produto premium para alimentação de altos-fornos e redução direta na siderurgia. Melhora a eficiência da produção de aço, reduz emissões e permite o aproveitamento de materiais que seriam descartados como rejeitos.
Produto da indústria siderúrgica cujo processo produtivo é feito utilizando fontes de energia sustentáveis e com emissões neutras de CO₂.
Processo siderúrgico que transforma minério de ferro em ferro esponja por meio de reação com gases redutores, sem atingir ponto de fusão. Alternativa ao alto-forno, utiliza gás natural ou hidrogênio como redutor. Produz matéria-prima para fornos elétricos, com menor emissão de carbono que rota convencional, sendo estratégico para descarbonização da indústria siderúrgica.
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Fonte: https://radarmineracao.com.br/aumenta-a-demanda-por-minerio-de-ferro-de-alto-teor-dr-grade/














