Os minerais críticos e o desenvolvimento de soluções tecnológicas de precisão são as bases para viabilizar a transição energética global, a inovação tecnológica e a infraestrutura industrial de baixo carbono. A afirmação foi feita pelo vice-presidente Técnico da Vale, Rafael Bittar, durante o painel “Da Terra à exploração espacial: como a mineração molda as tecnologias da próxima era”, realizado na quarta-feira (10/6) no Web Summit Rio 2026. O executivo detalhou as metas de descarbonização da companhia, os investimentos em inteligência artificial (IA) e a centralidade de minerais como cobre e níquel para a eletrificação e o avanço tecnológico.
Bittar afirmou que a empresa executa um plano para duplicar a produção de cobre no Brasil. Segundo o executivo, a demanda para o cobre deve ser robusta para os próximos anos. A previsão é de que isso resulte em escalada nos preços, uma vez que o mineral é fundamental para a transição energética, estando presente na fabricação de veículos elétricos, usinas eólicas e painéis solares.
A empresa atua ainda como a maior produtora de níquel do Ocidente, posição apontada como estratégica para garantir a segurança do suprimento de cadeias globais. Em relação ao lítio, Bittar destaca o minério como “essencial para as baterias” e afirma que a empresa está atenta à demanda por esse mineral crítico, estudando o mercado, embora ainda não tenha planos concretos de produção.
Sobre investimentos no Oriente Médio, Bittar afirmou que a empresa segue avaliando planos de criar mega hubs para mistura e venda de minério. Mesmo com a instabilidade política global e os acontecimentos recentes na região, a companhia continua apostando na criação dessas estruturas logísticas para ter uma cadeia de distribuição flexível e bem posicionada globalmente.
Minério de ferro como essencial para descarbonização siderúrgica
O executivo também reforçou o minério de ferro como estratégico e uma oportunidade relevante para a empresa, principalmente pelo seu papel na descarbonização da indústria siderúrgica. Essa frente depende do fornecimento de minério de ferro de alta pureza, com teor acima de 65%. Atualmente, 90% das emissões da cadeia do aço não vêm da mineração em si, mas do processo de produção do aço pelos clientes.
Segundo Bittar, a companhia está bem posicionada globalmente em minério de ferro, tendo retomado no ano passado a posição de maior produtora do mundo, garantindo escala e qualidade. A expectativa é de que, com o avanço acelerado da transição energética — especialmente puxada por países como a China, visando à segurança energética —, o minério de alta qualidade seja reprecificado pelo mercado, passando a receber prêmios maiores por apresentar menores níveis de emissão na produção.
O principal concorrente da Vale em minério de ferro é a Austrália, que fica geograficamente ao lado da China, o maior cliente. Por isso, a empresa precisou inovar e criar uma cadeia de distribuição sofisticada, utilizando navios de 400 mil toneladas para fazer o transporte global de forma competitiva.
Nessa equação está ainda a mineração circular. Como parte das iniciativas de sustentabilidade, a empresa produziu recentemente 26 milhões de toneladas de minério de ferro a partir de fontes circulares, uma inovação que gerou economia de emissões equivalente a tirar 20 mil carros das ruas.
No âmbito operacional interno, a empresa atingiu o índice de 100% de consumo de energia renovável para o Escopo 2 no Brasil. Para reduzir o consumo de diesel na frota rodoviária, estão sendo testados motores dual-fuel que operam simultaneamente com etanol e diesel. Na logística marítima, os novos navios da classe Guaibamax serão equipados com sistemas multicombustível, o que permite flexibilidade econômica e redução de emissões no transporte de longo curso até a Ásia.
Levando em conta os Escopos 1 e 2, a companhia mantém o objetivo de reduzir em 50% suas emissões até 2030, além de atingir o net-zero até 2050. De acordo com o executivo, o cumprimento dessas metas está atrelado a um orçamento anual de US$ 700 milhões destinado a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI). Desse montante, um terço é direcionado para tecnologias de IA e automação, enquanto 25% financiam projetos de descarbonização e novos combustíveis.
Soluções tecnológicas para aumentar a produtividade
Bittar destacou que o uso da inteligência artificial é considerado um “caminho sem volta” na companhia. O primeiro projeto da empresa nessa área começou em 2017 e, atualmente, há entre 70 e 80 projetos de IA em andamento, a grande maioria voltada para eficiência operacional.
O executivo detalhou o uso prático da IA em quatro frentes principais: otimização de caminhões, frota autônoma, eficiência em ferrovias e operações logísticas. Na primeira frente, a empresa utiliza IA para monitorar detalhadamente a performance de caminhões de 400 toneladas. O sistema cruza dados do trajeto e da aceleração para identificar em quais pontos o veículo desperdiça mais combustível e, a partir disso, emite recomendações diretas ao operador sobre a velocidade ideal em determinados trechos.
No que se refere à frota autônoma, a IA envia os comandos diretamente para o veículo. Esse nível de automação gera uma produtividade de 20% a 25% superior à dos caminhões tripulados, reduzindo simultaneamente a exposição humana a riscos e o consumo de pneus e combustível.
Já nas operações ferroviárias, a IA é empregada para entender o relevo do terreno e mapear os pontos exatos onde o trem deve frear ou usar melhor a potência do motor. Apenas no ano passado, o uso dessa tecnologia gerou uma economia de 11 milhões de litros de diesel, o que equivale à economia de 250 mil carros.
Na logística naval, a companhia possui uma IA dedicada a monitorar sua frota global de navios para reduzir os tempos de espera das embarcações. Como um navio parado aguardando operação continua gerando custos e consumindo combustível, a tecnologia é usada para otimizar essa logística e melhorar a performance.
A segurança do trabalho nas operações industriais foi associada ao avanço da teleoperação de equipamentos de grande porte. Bittar citou o exemplo de intervenções em minas localizadas a 200 quilômetros de distância do centro de controle centralizado em Belo Horizonte (MG). A transferência de operadores humanos de áreas de risco para ambientes de escritório foi apontada como prioridade técnica.
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Fonte: https://radarmineracao.com.br/tecnologia-minerais-criticos-transicao-energetica/












