Luiz Araújo, da Agência iNFRA
O novo CEO da Rumo, Daniel Rockenbach, informou que a companhia vai reduzir os investimentos em ferrovias no país e focar em gerar “valor e retorno” sobre o capital investido, incluindo aumentos de preços. A empresa vinha liderando nos últimos anos os investimentos no setor, com a construção de novo trecho ferroviário em modelo de autorização privada e a ampliação de capacidade em concessões federais.
A indicação foi dada nesta quinta-feira (13) durante a teleconferência de resultados da companhia no segundo trimestre, que reportou lucro de R$ 688 milhões. As ações da empresa, que estão em queda há algum tempo, subiram quase 5% ao longo do dia. A empresa opera as principais rotas de transporte ferroviário ligadas ao agronegócio no país.
De acordo com Rockenbach, a nova estratégia comercial da Rumo deve passar pela exploração de flexibilidades previstas em seus contratos para diluir, ao longo dos próximos anos, os investimentos. O foco da nova fase é a capacidade existente. “Nossa estratégia será baseada na geração de valor e retorno sobre capital investido. Nesse sentido, a redução de Capex e Opex está no topo da nossa agenda”, disse.
A Rumo administra cinco concessões ferroviárias atualmente – Malha Paulista, Malha Norte, Malha Central, Malha Sul e Malha Oeste – além da FMT (Ferrovia Estadual de Mato Grosso), operada sob regime de autorização pelo estado. Os contratos estão em diferentes momentos, com obrigações e cronogramas próprios, o que deve exigir revisões individuais dos investimentos.
Entre os maiores compromissos assumidos pela companhia estão os R$ 6 bilhões na Malha Paulista, na renovação antecipada acordada com o governo federal em 2020, e outros R$ 9 bilhões previstos para a FMT, numa autorização dada pelo governo do Mato Grosso em 2024. Parte desses compromissos já foi executada.
Na conferência, não foram detalhados quais investimentos podem ser afetados para que a companhia alcance o objetivo de reduzir os custos com capex. O vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores, Guilherme Machado, afirmou que a empresa ainda trabalha na revisão interna do orçamento e que dará mais visibilidade às medidas posteriormente. “Já temos alguns elementos e já sabemos onde vamos trabalhar para trazer esse Capex para um patamar inferior ao deste ano”, afirmou.
Segundo os executivos, a mudança não decorre de uma deterioração financeira da empresa, mas de um reposicionamento para geração de valor após um período de expansão. “Fizemos investimentos relevantes, aumentamos a nossa base de ativos e áreas de atuação. Precisamos assegurar agora que essa capacidade seja aproveitada ao máximo e vemos que temos oportunidades nesse sentido”, disse o CEO da companhia, que assumiu em julho.
Elevação de preços
A companhia também sinalizou que pretende elevar os preços cobrados dos clientes como parte da transição para uma estratégia mais voltada à geração de valor. A avaliação é de que há espaço para precificar melhor a qualidade dos serviços e a infraestrutura disponibilizada, em um movimento que deve ocorrer de forma gradual, segundo os diretores. Para o fim deste ano, a empresa já prevê aumento das tarifas, embora não espere impactos relevantes no último trimestre, já que 80% da capacidade já está contratada.
Outro impacto positivo previsto para os próximos balanços é a redução dos desembolsos com outorgas. Os pagamentos devem passar de cerca de R$ 900 milhões neste ano para R$ 700 milhões em 2027 e cair para aproximadamente R$ 100 milhões anuais a partir de 2028. A redução ocorre após a companhia ter antecipado, em 2020, parte relevante das outorgas dos contratos da Malha Central e da Malha Paulista, então recém-assumidos.
Cortes não detalhados
Os custos com investimentos deste ano foram puxados pela entrega da primeira de três fases da FMT. A ferrovia foi citada como exemplo de ativo em que a empresa dispõe de maior flexibilidade contratual para organizar os investimentos. Como opera em regime de autorização, o compromisso de entregas é mais flexível do que o de uma concessão. A prioridade para a FMT neste momento é o avanço da operação do trecho de 162 quilômetros entregue em junho, enquanto a companhia avalia quando retomar as discussões sobre as próximas fases, informaram os executivos.
De acordo com o site da Rumo, a FMT foi autorizada entre as cidades de Rondonópolis e Lucas do Rio Verde, com um ramal até a capital do estado, Cuiabá. São 743 quilômetros de extensão. Os pouco mais de 20% entregues chegam a um entroncamento com a BR-070 em Dom Aquino. A empresa informou que os custos desse trecho foram de R$ 5 bilhões.
Para os demais ativos, a companhia informou que ainda avalia como a revisão dos programas de investimentos poderá ser feita. “A importância para nós é entregar capacidade e segurança. Se conseguirmos realizar isso de maneira eficiente, racionalizando o montante financeiro aplicado, vamos fazer”, disse Machado. Uma das possibilidades citadas é a priorização de investimentos que garantam ganhos operacionais, enquanto se posterga, por exemplo, a construção de novos pátios.
Machado indicou que um dos programas que podem fazer parte da nova estratégia é a compra de material rodante, visto como importante para sustentar o crescimento financeiro usando a infraestrutura atual. Para equilibrar os investimentos voltados a ganhos operacionais, ele citou ainda a possibilidade de distribuir as obrigações contratuais ao longo do tempo. “De tal maneira que a gente já crie oportunidade de atenuar o desembolso ou o fluxo de caixa despendido nesses programas dentro dos próximos anos.”
Quadro dos ativos
A Malha Paulista, que tem cerca de dois mil quilômetros entre Santa Fé do Sul (SP) e o Porto de Santos, teve seu contrato renovado antecipadamente em 2020 até 2058. O caderno de obrigações, que detalha os investimentos e o calendário, foi estimado em R$ 9 bilhões, após revisões até 2023. Durante a conferência, os executivos foram questionados, mas não responderam se a nova estratégia comercial terá impacto sobre a Malha Paulista.
Pelos termos atuais, a companhia precisa concluir, até maio de 2028, pelo menos 80% dos investimentos obrigatórios. No início de 2025, a Rumo informava ter aplicado cerca de R$ 3 bilhões desde a renovação. Conforme dados de maio de 2025 da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), 140 obras e entregas haviam sido concluídas, enquanto outras 250 estavam previstas até 2032.
Para renovar o contrato da Malha Paulista, o governo precisou em 2017 flexibilizar regras porque a empresa não cumprira o programa de investimentos ao longo do contrato iniciado em 1997. Depois da renovação de 2020, a Rumo novamente não estava cumprindo o programa de investimentos acordado e teve que pedir uma repactuação do contrato, que foi feita na SecexConsenso do TCU (Tribunal de Contas da União) em 2023.
Além dos investimentos nesse corredor que vem do Mato Grosso ao Porto de Santos, a companhia também opera um trecho da Ferrovia Norte-Sul, entre Tocantins e São Paulo, chamado de Malha Central. Nesse trecho, o governo tenta mediar um acordo para que a companhia adeque o contrato a novos parâmetros de operação, o que também demandaria mais investimentos, conforme reportagem da Agência iNFRA.
No caso das outras duas malhas da companhia, a Malha Oeste e a Malha Sul, elas estão com contratos finalizados ou em finalização, e o governo pretende relicitá-los, mas com previsão de vultosos investimentos para ampliação de capacidade nesses dois corredores.
*Reportagem atualizada às 10h desta sexta-feira (14 de agosto) com informações adicionais.












