A mineração responde por 1,6% da retirada de água no Brasil e 0,8% do consumo efetivo, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Em contrapartida, o setor já opera com índices de reúso acima de 85%, conforme o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Os dados reforçam uma mudança no debate setorial, hoje mais concentrado em soluções para a boa gestão do recurso. A discussão passa por eficiência no uso da água, impactos sobre custos, licenciamento ambiental e risco operacional.
Embora o volume total seja relativamente baixo em escala nacional, o uso da água na mineração é intensivo e concentrado nas regiões mineradoras, como Minas Gerais e Pará, o que amplia a pressão sobre bacias hidrográficas locais. Nesses territórios, a disputa por recursos hídricos com agricultura e abastecimento urbano transforma a gestão da água em tema estratégico, com implicações ambientais, sociais e regulatórias.
Por isso, o reúso de água se tornou prática consolidada na mineração brasileira, com empresas superando 90% de reaproveitamento da água captada em processos industriais, segundo o Ibram. Em minerais industriais, esse índice pode se aproximar de 100%, dependendo das condições operacionais.
O nível de eficiência resulta da adoção de sistemas como circuitos fechados, espessadores e reaproveitamento de rejeitos, que permitem reduzir a captação de água nova e aumentar a autonomia hídrica das operações. Na prática, quanto maior o nível de reúso, menor a dependência de fontes externas e maior a resiliência da mina em cenários de escassez.
Casos de sucesso com água reutilizada
A gestão hídrica na mineração avançou significativamente nos últimos anos, incorporando tecnologia, monitoramento e metas ESG. Em 2024, a Vale registrou que 83% da água utilizada em suas operações veio de reúso ou recirculação, totalizando mais de 510 milhões de metros cúbicos reaproveitados. O desempenho está ligado a investimentos em eficiência hídrica, monitoramento em tempo real e redução do consumo de água nova, que já caiu mais de 30% em relação aos níveis de 2017.
O reúso de água envolve etapas como decantação, filtração e controle físico-químico, garantindo que a água retorne ao processo produtivo em condições adequadas. Além de reduzir impactos ambientais e atender exigências regulatórias, a prática fortalece a segurança hídrica das operações minerais.
Outro destaque é a Cedro Mineração, na Mina do Gama, em Nova Lima (MG). A empresa implementou um sistema que permite reaproveitar 85% da água usada no beneficiamento do minério. Além disso, quase 90% da água utilizada no controle de poeira vem de reúso, incluindo efluentes tratados. Segundo reportagem do Valor Econômico, a estratégia faz parte de um modelo baseado em empilhamento a seco e filtragem de rejeitos. Para isso, a companhia investiu cerca de R$ 30 milhões em filtros prensa, tecnologia que reduz a umidade dos rejeitos e elimina a necessidade de barragens convencionais.
A Hydro também desenvolve iniciativas de eficiência hídrica em sua operação de bauxita em Paragominas (PA). Segundo a empresa, a unidade utiliza sistemas de espessamento, clarificação e aproveitamento de água da chuva para reduzir a captação em fontes naturais. O projeto inclui ainda a tecnologia “Tailings Dry Backfill”, que permite secar os rejeitos e devolvê-los às áreas mineradas, reduzindo impactos ambientais e aumentando a segurança operacional.
Beneficiamento a seco e empilhamento de rejeitos reduzem uso de água
A redução do consumo hídrico na mineração está diretamente ligada à adoção de tecnologias mais eficientes. O empilhamento a seco de rejeitos, que substitui barragens convencionais ao desidratar os resíduos, é um processo que reduz significativamente a necessidade de água no beneficiamento mineral e ainda aumenta a segurança operacional, ao eliminar estruturas de maior risco ambiental.
Outras soluções incluem circuitos fechados de água, captação de chuva e reaproveitamento de efluentes industriais, além de alternativas como dessalinização em regiões com escassez hídrica. Essas tecnologias são mais comuns em projetos novos, enquanto operações antigas enfrentam desafios para adaptação.
O avanço de circuitos internos de recirculação e reúso, com operações que já conseguem reaproveitar cerca de 85% da água no processo produtivo e até 90% em atividades auxiliares, como controle de poeira, ocorre com uso de efluentes tratados, em um modelo que reduz a captação em fontes naturais e aumenta a eficiência operacional. Soluções como essa fazem parte de uma abordagem mais ampla de gestão hídrica inteligente, alinhada a práticas internacionais de sustentabilidade, nas quais a água passa a ser tratada como ativo estratégico.
O uso combinado de filtragem, reaproveitamento e novas formas de disposição de rejeitos mostra que a tecnologia permite produzir mais com menos água, conciliando desempenho econômico, segurança e menor impacto ambiental.














