O petróleo foi, durante décadas, a principal representação de poder entre as nações. Mas, ele vem sendo gradualmente substituído por um novo grupo de matérias-primas: os chamados minerais estratégicos. Considerados fundamentais para tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas, baterias, semicondutores e sistemas de defesa, esses recursos se tornaram o eixo de uma disputa geopolítica que envolve as maiores economias do planeta e posiciona o Brasil como um dos países mais promissores nesse novo cenário.
Minerais estratégicos são aqueles considerados essenciais para tecnologias modernas e para a segurança econômica e energética dos países. Eles incluem insumos como lítio, cobre, níquel, grafite e elementos de terras raras, fundamentais para baterias, veículos elétricos, energia renovável e eletrificação em larga escala. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), esses materiais sustentam a transição energética global e têm demanda crescente, impulsionada por metas climáticas e pela expansão de tecnologias de baixo carbono.
A urgência em garantir acesso a esses recursos se explica pelo risco de fornecimento. A produção e o refino de vários minerais são altamente concentrados em poucos países, o que cria vulnerabilidades nas cadeias globais. Para a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), essa dependência pode afetar diretamente a capacidade mundial de escalar energia limpa.
No Brasil, a Agência Nacional de Mineração (ANM) classifica como estratégicos os minerais que possuem relevância econômica, tecnológica ou de defesa e cuja disponibilidade é considerada crítica para o país. Já o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) destaca que a expansão industrial e energética depende da estabilidade no acesso a esses insumos.
China domina o processamento e lidera a cadeia global
Nenhum país consolidou uma posição tão dominante na cadeia global de minerais estratégicos quanto a China, que nas últimas décadas investiu de forma deliberada e abrangente tanto na mineração quanto no processamento e refino desses recursos essenciais.
Segundo a IEA, o país responde por grande parte da capacidade mundial de refino de minerais críticos: em 2024, a China dominava cerca de 70% do refino de 19 dos 20 minerais energéticos-chave, incluindo grandes fatias do processamento de grafite, terras raras, lítio, cobalto e outros metais essenciais para tecnologias como baterias e motores elétricos.
Esse domínio se estende à cadeia industrial completa, que vai do refino básico até a produção de componentes de alto valor agregado. Para muitos desses minerais, a participação chinesa chega a patamares extremos, como produções superiores a 90% em grafite e elementos de terras raras refinados, criando uma condição de estrangulamento global no fornecimento desses produtos fundamentais.
A IEA declarou que, entre as vantagens estratégicas da posição chinesa, está a de influenciar cadeias produtivas globais e negociar seu acesso a recursos e mercados com base em seu controle do processamento. Trata-se de uma questão geopolítica central, levando outros países a buscar diversificação de fontes e políticas industriais para reduzir dependências.
Estados Unidos quer reduzir dependência
Com o crescente domínio da China sobre as cadeias globais de mineração e processamento de minerais críticos, os Estados Unidos transformaram a segurança desses insumos em prioridade de Estado, lançando uma série de programas e políticas para reduzir uma possível dependência externa.
Por isso, o governo americano está investindo na produção doméstica e em cadeias de refino, como parte de uma estratégia mais ampla que inclui financiamentos e ações para fortalecer a mineração interna, o refino e o armazenamento de matérias-primas consideradas críticas para setores como defesa e tecnologia avançada.
Recentemente, o governo norte-americano anunciou um fundo de US$ 12 bilhões dedicado a minerais críticos, com o objetivo explícito de reduzir a dependência da China e garantir fornecimento para necessidades estratégicas. Além disso, o país investe em esforços diplomáticos, buscando formalizar acordos com países como Austrália, Índia, Ucrânia e Japão para diversificar fontes e criar alternativas à cadeia liderada pela China.
A estratégia americana pretende garantir um acesso seguro a matérias-primas críticas por meio de alianças comerciais e investimentos conjuntos, ao mesmo tempo em que fortalece a base produtiva doméstica. Ações coordenadas com aliados são vistas como instrumentos para reduzir vulnerabilidades e reforçar a resiliência das cadeias de suprimento frente ao poder de mercado chinês.
União Europeia aposta em diversificação
A União Europeia enfrenta um desafio semelhante ao dos Estados Unidos ao lidar com a forte dependência de importações de minerais estratégicos, especialmente para sustentar sua transição energética verde e sua indústria tecnológica. O bloco tem pouca produção mineral própria e depende majoritariamente de fornecedores externos para elementos de terras raras, magnésio e outros insumos críticos, com uma parte significativa vindo de um único país fornecedor, o que expõe vulnerabilidades geopolíticas e de cadeia de abastecimento.
Para mitigar esses riscos, o bloco adotou políticas voltadas à diversificação de fornecedores, promoção de reciclagem e desenvolvimento de cadeias produtivas internas. A legislação central nessa estratégia é o Critical Raw Materials Act, que tem como objetivo fortalecer capacidades de extração, processamento e reciclagem dentro do bloco, reduzir a dependência de um único fornecedor externo e criar parcerias com países aliados para reforçar a resiliência das cadeias de suprimento.
Além disso, iniciativas como o plano RESourceEU e metas estabelecidas até 2030, que incluem benchmarks para extração, processamento e reciclagem de matérias-primas críticas, refletem a prioridade europeia em alcançar maior autonomia mineral. A estratégia também envolve acordos internacionais e políticas de economia circular, um passo importante para reduzir vulnerabilidades e garantir que setores críticos da economia do bloco tenham acesso estável a esses recursos.
Corrida global por acesso a recursos brasileiros
O Brasil está se posicionando no centro da nova geopolítica dos minerais estratégicos, em um cenário em que grandes potências disputam acesso a insumos ligados à transição energética e a cadeias tecnológicas avançadas. Segundo a ANM, o território brasileiro abriga reservas relevantes de lítio, níquel, grafite e terras raras, além de liderar a produção de nióbio, base para ligas metálicas de alto desempenho. Para o Ibram, essa diversidade e escala colocam o país em posição estratégica no mapa global dos recursos naturais.
O fato é que todo esse potencial mineral atrai interesse internacional. Governos e empresas estrangeiras buscam formas de garantir acesso a matérias-primas consideradas críticas para suas indústrias, um movimento que, segundo análises da AIE e da Irena, é impulsionado pelo papel que minerais estratégicos desempenham na expansão de energias renováveis, baterias e tecnologias de baixo carbono.
À medida que a demanda global aumenta, países com reservas robustas e ambiente institucional estável tornam-se peças centrais nas cadeias produtivas do futuro, e o Brasil se enquadra nesse perfil. O país oferece ainda estabilidade institucional, infraestrutura mineral consolidada e tradição operacional, fatores que ampliam sua atratividade para investimentos.
O desafio, segundo a ANM e o Ibram, é transformar esse potencial geológico em desenvolvimento industrial, agregando valor à produção e fortalecendo a presença brasileira nas cadeias globais de alto conteúdo tecnológico.
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Fonte: https://radarmineracao.com.br/minerais-estrategicos-redesenham-o-poder-global/











