Tema recorrente no Mining Innovation Summit, realizado ontem (02) em Belo Horizonte, foi o impacto da inteligência artificial sobre a demanda por recursos minerais. Para o vice-presidente executivo técnico da Vale, a expansão dos data centers e da infraestrutura digital deve provocar forte aceleração do consumo de metais e energia. “Hoje, já há falta de minerais. Os data centers para suportar a IA e toda demanda brutal da digitalização dependem de minerais e de energia”, disse.
O executivo acredita que essa transformação provocará uma redistribuição dos investimentos globais. “Quando se olha uma NVIDIA, que vale US$ 5 trilhões [se percebe a discrepância]. Pois, se juntarmos o valor de mercado de todas as empresas de mineração, chegaremos a 50% do valor da NVIDIA. Não faz muito sentido quando temos toda essa demanda”, destacou. “Haverá uma migração gradual de recursos para os setores de energia e mineração”, disse.
Capital busca segurança e capacidade de execução
Ao tratar da atração de investimentos, painelistas do evento destacaram que o atual contexto favorece empresas capazes de combinar governança, escala, inovação e previsibilidade.
Na avaliação do economista e diplomata Marcos Troyjo, mudanças estruturais na economia mundial têm levado investidores a olhar com mais atenção para países que oferecem segurança alimentar, energética e mineral. “Essa mudança estrutural que vemos no mundo é tão absolutamente potente que, se pegarmos a ótica dos investimentos estrangeiros diretos, nos dois últimos anos do governo anterior e nos dois primeiros anos deste governo, o Brasil foi o segundo maior destino de investimento estrangeiro direto”, mencionou.

Troyjo argumentou que o país reúne atributos cada vez mais valorizados em um cenário internacional marcado por preocupações com segurança alimentar, energética e acesso a recursos estratégicos. “Onde existe uma gigantesca discussão sobre segurança alimentar, o Brasil diz ‘presente’. Onde existe uma gigantesca discussão sobre diversidade energética, o Brasil diz ‘presente’. No mundo em que os recursos naturais se transformaram em recursos estratégicos, os minerais também estão presentes”, enumerou. Segundo o economista, a combinação desses fatores ajuda a explicar o interesse crescente de investidores internacionais pelo país.
Rafael Bittar pontuou que empresas com capacidade comprovada de execução tendem a ocupar posição privilegiada nesse movimento. “Já estamos construindo essa mineração do futuro, pois temos como mostrar que a mineração pode ser mais sustentável, gerar valor compartilhado, ser mais inteligente e autônoma”, afirmou.
Do potencial à competitividade
Embora reconheçam as vantagens geológicas e de maturidade empresarial do país, os especialistas destacaram que transformar recursos minerais em investimentos continua sendo um dos principais desafios brasileiros.

A presidente da Anglo American no Brasil, Ana Sanches, chamou atenção para as limitações do conhecimento geológico disponível. “Hoje, temos 27% do solo brasileiro mapeado do ponto de vista geológico”, lembrou. Na sua avaliação, ampliar esse conhecimento por meio de novas tecnologias é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte envolve licenciamento, segurança jurídica e previsibilidade regulatória. “Quando começamos a descrever todas as implicações que um processo de licenciamento no Brasil traz e todas as etapas não controláveis, os investidores tendem a correr para outros países”, afirmou.
Ela ressaltou a necessidade de reforçar a legitimidade social da atividade mineral. “Quando se está sob holofote, tem de se andar cada vez mais no trilho”, constatou. Para a executiva, o setor precisa evidenciar sua capacidade de operar de forma segura, sustentável e responsável para consolidar protagonismo.













