A transição energética global desencadeou uma corrida silenciosa, mas de enormes implicações econômicas e geopolíticas, por minerais como lítio, terras raras, níquel, grafite e cobre. O Brasil, detentor de algumas das maiores reservas desses recursos, ocupa uma posição privilegiada nesse novo cenário.
No entanto, especialistas, pesquisadores e autoridades públicas alertam que a riqueza geológica, por si só, não garante protagonismo. Sem capacidade de processamento industrial, inovação tecnológica, segurança jurídica e instituições fortalecidas, o país corre o risco de repetir um papel histórico de exportador de matérias-primas e importador de tecnologia.
O tema foi discutido durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos 2026, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que reuniu representantes do governo federal, do setor produtivo, da academia e de instituições de pesquisa.
O desafio é agregar valor, não apenas extrair minério
Durante o painel “O fortalecimento das instituições nacionais para defesa da agenda de minerais críticos e estratégicos“, o diretor do Instituto Senai/PA de Inovação em Tecnologias Minerais, Adriano Reis Lucheta, defendeu que o conceito de soberania mineral precisa ser revisto. Segundo ele, a riqueza não está apenas na existência dos depósitos, mas na capacidade de transformar esses recursos em produtos industrializados.
“A soberania não está somente no recurso mineral”, afirmou.
o Brasil precisa abandonar a lógica de medir o sucesso da mineração apenas pelo volume produzido e passar a priorizar a agregação de valor. “Nós não vamos pensar mais em volume produzido de minério, mas em valor agregado.
Lucheta
A questão ganha relevância especial no caso das terras raras, conjunto de elementos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos. O domínio dessa cadeia produtiva permanece fortemente concentrado na China, que controla desde a mineração até o processamento industrial.
Na avaliação do professor titular da Escola Politécnica da USP, Fernando José Gomes Landgraf, cada etapa adicional do beneficiamento multiplica significativamente o valor econômico do minério. Segundo ele, a simples transformação do minério em óxido eleva seu valor de mercado, enquanto a produção de ímãs permanentes gera um salto ainda maior.

O desafio de escalar a inovação
De acordo com os painelistas, transformar potencial mineral em indústria de alta tecnologia está longe de ser uma tarefa simples. O salto do laboratório para a produção em escala comercial exige domínio tecnológico, infraestrutura sofisticada e mão de obra altamente especializada.
O gerente de Pesquisa, Inovação e Tecnologia do Centro de Inovação e Tecnologia (CIT Senai/MG), José Luciano de Assis Pereira, explicou que a produção de ímãs permanentes envolve questões metalúrgicas complexas. “Ao escalar o processo metalúrgico, os volumes são grandes e existem desafios relacionados à contaminação desses metais, que podem comprometer a qualidade do produto final”, afirmou.

Além das dificuldades técnicas, o Brasil também enfrenta uma escassez de profissionais preparados para atuar nessa fronteira tecnológica. “Não é fácil encontrar um engenheiro metalurgista que saiba trabalhar no processo industrial de produção de ímãs permanentes, por exemplo”, acrescentou.
A avaliação é compartilhada pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem). A diretora da instituição, Silvia Cristina Alves França, defendeu que o Brasil precisa avançar além dos projetos de pesquisa pontuais e investir efetivamente na industrialização da cadeia mineral. “Temos que parar de ‘brincar’ de fazer PDI [Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação]. Precisamos escalar e desenvolver a indústria de insumos para a gente conseguir dar passos adiante na agregação de valor”, afirmou.

Estruturas públicas operam no limite
A construção de uma política nacional para minerais críticos também depende da capacidade operacional do Estado. No entanto, os órgãos públicos responsáveis pelo setor enfrentam limitações severas de pessoal e orçamento.
O diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Henrique Moreira de Souza, revelou que a agência convive com um enorme passivo administrativo e um quadro insuficiente de servidores. “Hoje, a ANM tem na lista cerca de 255 mil processos minerários. Ao mesmo tempo, tem apenas 40% do número de servidores que deveria ter”, relatou.

A situação é ainda mais delicada na área dedicada aos minerais estratégicos. Segundo Souza, a unidade criada para tratar especificamente do tema conta com apenas quatro profissionais.
Na avaliação do diretor-geral, a ausência de uma política mineral estruturada dificulta a tomada de decisões em um cenário internacional que muda rapidamente. “Nós padecemos da falta dessa tomada de decisão”, afirmou, acrescentando que o país tenta administrar a nova realidade “sem ter estabelecido uma política mineral”.
Os problemas de financiamento também afetam diretamente os centros de pesquisa. Silvia França criticou o contingenciamento de recursos e afirmou que verbas destinadas por lei ao desenvolvimento do setor não chegam integralmente às instituições. “A Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) não é repassada devidamente às nossas instituições”, afirmou.
Mesmo iniciativas consideradas estratégicas ainda são vistas como insuficientes diante do tamanho do desafio. O Projeto Magbras, voltado ao fortalecimento da cadeia de terras raras e ímãs permanentes, recebeu investimentos de R$ 73 milhões. Para a diretora do Cetem, o valor está longe de atender às necessidades nacionais.
Insegurança jurídica afasta investimentos
Além dos entraves tecnológicos e financeiros, os participantes do debate apontaram a insegurança jurídica como um dos principais fatores que reduzem a competitividade brasileira na disputa por investimentos.
Souza, da ANM, citou conflitos relacionados à criação de unidades de conservação ambiental em áreas onde já existiam títulos minerários concedidos anteriormente. Segundo ele, a sobreposição de regras gera perda de direitos e incertezas para investidores. “Nesses casos, ninguém fala quem vai indenizar o título”, afirmou.
Para enfrentar esse cenário, o Congresso Nacional discute a criação de um marco legal específico para os minerais críticos e estratégicos. Durante o painel “A construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos“, o deputado federal Zé Silva (União-MG), presidente da Frente Parlamentar de Mineração Sustentável, afirmou que a proposta foi construída com o objetivo de oferecer previsibilidade para todos os agentes envolvidos. “Nós procuramos garantir um projeto de segurança jurídica. Tanto para os investidores, quanto para as populações locais e o Estado brasileiro”, explicou.

O parlamentar também defendeu uma atuação mais eficiente do poder público, capaz de coordenar políticas estratégicas sem ampliar a burocracia. Para ele, uma das prioridades é evitar que regiões ricas em recursos naturais continuem convivendo com ausência de políticas públicas estruturadas.

Mineração como vetor de desenvolvimento
As discussões também evidenciaram o protagonismo de Minas Gerais na nova geografia nacional dos minerais estratégicos. O estado concentra importantes reservas de lítio e de outros elementos essenciais para a transição energética e busca transformar essa vocação mineral em desenvolvimento regional.
A secretária de Desenvolvimento Econômico do estado, Mila Corrêa da Costa, resumiu esse potencial ao afirmar que “em Minas Gerais, nós temos toda a tabela periódica do Brasil, em razão do potencial geológico”.

Segundo ela, a expansão da mineração voltada à nova economia pode impulsionar regiões historicamente menos desenvolvidas, como o Vale do Jequitinhonha, desde que venha acompanhada de investimentos em infraestrutura e qualificação profissional. “É um projeto transversal do governo do estado para a região mais carente”, afirmou.
Entre as iniciativas destacadas estão programas de capacitação de trabalhadores, como o Trilhas de Futuro, e investimentos em logística, incluindo aportes no aeroporto de Araçuaí, para apoiar a expansão econômica da região.
Ao mesmo tempo, Mila alertou para os impactos imediatos provocados pela chegada de grandes empreendimentos minerários. “Quando vem um empreendimento grande, o valor dos imóveis e dos aluguéis aumenta. Além disso, existe um crescimento de demanda de educação e de saúde pública, e quem vai suportar isso é o governo municipal, com apoio do estado”, afirmou.
Geopolítica exige uma estratégia nacional
Na visão do governo federal, a mineração tradicional e a cadeia dos minerais críticos exigem políticas distintas. O chefe de gabinete da vice-presidência da República, Pedro Henrique Giocondo Guerra, argumentou que a mineração convencional já possui uma dinâmica consolidada, enquanto os minerais estratégicos estão inseridos em uma disputa geopolítica internacional.

“A indústria da mineração caminha muito bem sozinha”, afirmou. “Só que quando vamos para os minerais críticos, percebemos claramente que existe uma conjuntura geopolítica que exige tratamento diferenciado.”
Segundo ele, instrumentos de financiamento público podem desempenhar papel importante para reduzir riscos e atrair capital privado. Entre as iniciativas citadas estão a chamada pública do BNDES voltada ao setor e a criação de um fundo destinado a empresas de pequeno e médio porte.
A oportunidade pode não esperar
Embora os debates tenham mostrado convergência entre governo, setor produtivo e comunidade científica sobre a importância dos minerais críticos para o futuro da economia brasileira, a mensagem final foi de urgência.
Para Silvia França, a maior ameaça não é a falta de recursos minerais, mas a incapacidade de transformar essa vantagem natural em capacidade tecnológica e industrial antes que outros países consolidem suas cadeias produtivas.
Na avaliação do diretor-presidente do Serviço Geológico do Brasil, Vilmar Medeiros Simões, esse desafio só será superado por meio de uma estratégia integrada entre Estado, universidades, institutos de pesquisa e iniciativa privada. “Nós precisamos unificar uma política de desenvolvimento tecnológico que seja transversal”, defendeu.

Os painéis mostraram que o Brasil já possui a matéria-prima necessária para ocupar um papel de destaque na economia de baixo carbono. O que está em disputa, agora, não é apenas a exploração de jazidas, mas a capacidade de construir uma política nacional que converta riqueza mineral em inovação, indústria e desenvolvimento sustentável. Na nova geopolítica dos minerais críticos, quem dominar a tecnologia agregará valor — e quem se limitar a exportar minério continuará vendendo barato aquilo que, mais adiante, precisará comprar caro.
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Fonte: https://radarmineracao.com.br/brasil-corre-para-converter-riqueza-mineral-em-lideranca/









