A necessidade de ampliar a oferta de minerais estratégicos para atender à transição energética, à digitalização da economia e à demanda global por infraestrutura exige um volume crescente de investimentos de longo prazo. Contudo, financiar projetos minerais em um contexto de exigências ambientais cada vez maiores, custos elevados de capital e maturação prolongada é desafiador para investidores e empresas.
O tema foi debatido no Mining Innovation Summit, realizado nesta semana em Belo Horizonte. Em um painel denominado Green Finance, especialistas do mercado financeiro e da indústria mineral discutiram caminhos para ampliar a financiabilidade dos projetos e acelerar a agenda de sustentabilidade do setor.
Na avaliação dos painelistas, o desafio não está apenas na disponibilidade de recursos. A principal questão passa pela construção de estruturas capazes de compatibilizar risco, retorno e prazo em projetos intensivos em capital, além de incorporar novos modelos de financiamento adaptados às demandas da transição energética.
Segundo eles, a expansão da mineração – necessária para atender à transição energética e às novas demandas da economia global – dependerá tanto da inovação tecnológica quanto da evolução dos modelos de financiamento. A capacidade de combinar capital privado, instrumentos públicos, mitigação de riscos e execução eficiente será decisiva para transformar oportunidades em investimentos efetivos nas próximas décadas.
O desafio de financiar a sustentabilidade em escala
Ao abrir a discussão, a diretora da VBProjetos, Viviane Behar, provocou os participantes sobre os obstáculos para transformar projetos sustentáveis em investimentos efetivos. “Quando olhamos para projetos concretos, queremos saber se o principal gargalo é realmente a inovação tecnológica, a execução ou a dificuldade de estruturar capital para ativos industriais de longo prazo”, questionou.
O diretor de Transição Energética e Sustentabilidade do BNDES, Leonardo Pereira, reconheceu que o financiamento de projetos sustentáveis exige mecanismos diferentes daqueles tradicionalmente utilizados pelo mercado. “Para financiar projetos de sustentabilidade em escala, o que existe, na verdade, é uma assimetria de risco/retorno dos projetos, em relação ao que os acionistas e investidores procuram. Geralmente, temos um pouco mais de risco e um pouco menos de retorno”, explicou.

Segundo ele, a viabilização desses investimentos depende da combinação de diferentes instrumentos financeiros, capazes de reduzir riscos e aumentar a atratividade dos projetos. “Temos que combinar a estruturação de projetos, combinar P&D, mecanismos de blended finance e assunção de risco para projetos de maior incerteza, nos quais bancos e investidores não estão dispostos a investir”, afirmou.
O executivo destacou que o BNDES vem estruturando um portfólio de projetos ligados à transição energética, indústria de baixo carbono e soluções baseadas na natureza. “Montamos um pipeline de projetos financiáveis na área de transição energética e passamos a entender quais são os maiores riscos, as maiores barreiras e quais modelos de negócio podemos acelerar para fazer investimentos em escala. No mundo existem projetos semelhantes, mas nunca com a escala do Brasil”, lembrou.
Segundo Pereira, o interesse internacional por projetos brasileiros ligados à sustentabilidade e aos minerais críticos vem crescendo de forma significativa. “Acabamos de estruturar um project finance para investimentos de US$ 2 bilhões no setor de biocombustíveis SAF (combustível sustentável de aviação). Também estamos vendo um movimento importante em minerais críticos. Temos investidor canadense, australiano, europeu, chinês. Mas os mecanismos de financiamento e o project finance disponíveis hoje para concessões e PPPs ainda não estão disponíveis para financiar a sustentabilidade”, relatou.
Na avaliação dele, existe uma lacuna importante entre os instrumentos tradicionais de financiamento da infraestrutura e aqueles necessários para financiar a transformação sustentável da economia. “Temos que trazer essa turma que é muito boa em estruturação e também os fundos de investimento, tanto de equity quanto de dívida. Entendemos que mecanismos de concessionalidade podem fazer o de-risking dos projetos e ajudá-los a avançar”, sugeriu.
Viviane Behar destacou que o Brasil possui uma vantagem adicional frequentemente subestimada. “Temos uma vantagem comparativa impressionante que não foi tão falada, que é o mercado de capitais muito desenvolvido. Outros países emergentes que competem com o Brasil não têm um mercado de capitais tão desenvolvido, com tanta profundidade e liquidez como o Brasil tem”, ressaltou.
Custo do capital continua a ser obstáculo
Para o gestor de portfólio da YvY Capital, Bruno Laskowsky, a financiabilidade dos projetos está diretamente ligada ao ambiente econômico brasileiro. “Quando você fala de financiabilidade, está falando também de segurança e de custo de crédito. Esse é um tema central do Brasil. O custo do financiamento de projetos de longo prazo é muito alto”, afirmou.

Segundo o executivo, o custo do capital elevado continua sendo um dos principais entraves para o desenvolvimento de projetos estruturantes. “Temos uma taxa de juros muito alta. É importante lembrar que o Banco Central fixa a taxa de curto prazo. A taxa de longo prazo é precificada pelos agentes que avaliam o nível de risco. Portanto, no Brasil temos tanto a taxa de curto quanto a de longo prazo muito alta”, enfatizou.
Laskowsky argumentou que a infraestrutura necessária para a transição energética exige novos modelos financeiros. “Definimos nossa narrativa como uma migração da infraestrutura tradicional para a infraestrutura emergente. É a infraestrutura da transição energética, da substituição dos combustíveis fósseis, da floresta e da recuperação ambiental.”
Para ele, os mecanismos convencionais já não são suficientes para atender aos desafios atuais: “Os project finance e private equity tradicionais são formatos do século passado. O que os nossos projetos exigem hoje são formatos de financiamento em camadas preparados para o século XXI”, resumiu. Ele também alertou para o impacto dos juros elevados sobre a alocação de capital. “Enquanto não tivermos um caminho estruturante de redução dessa taxa, teremos uma complexidade adicional”.
Mineração é, antes de tudo, infraestrutura
O diretor global de operações da Anglo American, Ruben Fernandes, avaliou que a competitividade mineral depende diretamente da capacidade de desenvolver infraestrutura. “A mineração atual é diferente de quando comecei, há mais de 30 anos, assim como era diferente no século passado. Mas ela continua sendo, basicamente, infraestrutura”, resumiu.

A queda dos teores minerais e a crescente complexidade dos projetos ampliaram a necessidade de investimentos em tecnologia, logística, energia e gestão de capital, na visão Fernandes. “Precisamos de água, de ferrovia ou da solução logística que for. Hoje, percebemos que o contexto mudou demais porque os teores [de minérios] são muito mais baixos. Portanto, precisamos de mais tecnologia e de mais eficiência na alocação de capital”, observou.
Fernandes destacou que minerais existem em diversas regiões do mundo, o que torna a competição por investimentos ainda mais intensa. “A questão não é extrair valor. É compartilhar valor. Dentro do portfólio global, precisamos ser competitivos”, afirmou.
Embora a disponibilidade de capital seja importante, ele destacou que a capacidade de execução é fator decisivo para atrair investimentos. “As empresas são muito boas em propor estratégias, mas falham na execução. Tem um estudo da McKinsey que fala que 70% das empresas falham na execução”, afirmou.
Na avaliação dele, a execução passa por vários fatores, que vão muito além da engenharia ou do projeto em si. “Ela envolve relacionamento com o mercado, entendimento de risco, relação com comunidades, governos e políticas públicas. Como conseguimos colocar tudo isso dentro de uma abordagem que permita seguir na execução?”, questionou.
O executivo lembrou que os investimentos minerais possuem horizontes de décadas. “O papel aceita tudo. Podemos comparar taxa de retorno e payback, mas e a execução daquele projeto? E a sustentabilidade daquele projeto? Temos que ser competitivos ao longo da vida da mina”, observou.
Como exemplo de projeto bem-sucedido, Fernandes citou um empreendimento de cobre da Anglo American no Peru, que permaneceu cerca de 15 anos em desenvolvimento antes de entrar em operação. Nesse caso, a companhia optou por investir antecipadamente em soluções demandadas pelas comunidades locais antes mesmo da aprovação definitiva do projeto. “Escutamos a sociedade e entramos em uma mesa de diálogo com doze itens principais. Aquilo foi a força motriz para ganharmos confiança. O capital tem muito a ver com isso. O capital segue a credibilidade”, afirmou.
BNDES amplia instrumentos para transição climática
Ao discutir o papel dos bancos de desenvolvimento, Leonardo Pereira defendeu que o financiamento da transição exige tanto redução do custo de capital quanto maior disposição para assumir riscos.
“Temos que trabalhar na redução do custo de capital, até porque ele é muito alto. Mas também temos que incentivar o apetite ao risco na medida em que o investidor está mirando uma taxa de retorno maior”, afirmou.
Segundo ele, o banco vem utilizando linhas de inovação, recursos do Fundo Clima e fundos de investimento para ampliar o alcance do financiamento sustentável. “Precisamos combinar mecanismos de dívida, blended finance e também equity”, explicou.
O executivo destacou ainda a criação de fundos voltados à transição climática. “O banco vai investir em cinco fundos de transição climática, inclusive no setor de mineração. Estamos mobilizando cerca de US$ 400 milhões. Entre recursos do banco e investimentos externos, estamos mobilizando quase US$ 3 bilhões nesses fundos de transição climática”, concluiu.












